quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

TEATRO - SETE POUSOS

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“Sete Pousos”
Marcos Quinan
Co-autores: César Obeid e Trupe Quintal (Juliana Balsalobre, Marcos Ferraz, Marina Quinan e Leandro Oliva)

Músicas: Marcos Quinan:



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Personagens:

Narradores, um casal
Isidoro, rapaz
Jerômo Babá, velho tropeiro
Antero, pai de Isidoro
Borborema, mula
Quengo, malandro
Padre, o vigário safado
Maria, adúltera
João, marido
Clemente, pai de Rosinha
Rosinha, a filha prometida

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Prólogo



Música Retiro




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Narradora

- A Trupe Quintal apresenta o espetáculo: Sete Pousos, uma história poética, uma encenação proibida para quem não sabe sonhar...

Narrador

- Por volta de 120 anos atrás no sertão, época em que o comércio e os meios de comunicação eram tão somente os tropeiros, chamados também de cometas, época em que a moeda mais corrente era a troca ou os teres e haveres tratados no fio do bigode. Época em que o apalavrado era sagrado.

Narradora

Esta é uma das historias do Cometa de Jerômo Babá, famoso por ser o mais antigo na região, por sua regularidade nos pousos, pela qualidade da mercadoria que trazia e pelas noticias, recados e cartas que fazia chegar a todos os cantos. Era o positivo de maior credibilidade nesse sertão.

Narrador

Jerômo Babá um homem só, vivia para seu trabalho. Não havia encomenda que ele não desse conta de fornecer, cuidava das suas mulas com amor como se elas fossem gente.

Narradora

Seu ofício; abastecer o sertão com manufaturados, tecidos, sal, querosene etc... Levar e trazer notícias, encomendas ou até pessoas que não se arriscavam, naqueles ermos, sozinhas, muitas vezes até por desconhecerem os caminhos.

Narrador

A moeda corrente era também a gratidão. As trocas, muito comuns naquela época, viabilizavam as rotas e os transformavam em agentes do desenvolvimento. Eram o correio, o meio de transporte, os portadores das novidades, da divulgação de um artigo produzido num lugar. Faziam o registro de nascimento de nascidos nos lugares mais escondidos. Sempre apartidários, apenas relatavam a política por onde passavam, levavam e traziam recados orais ou escritos e faziam honestas permutas sertão afora.

Narradora

Esta é uma das historias do cometa de Jerômo Babá.


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Cena 1


Música Carrego das Mulas


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(As mulas caracterizadas por uma armação de arame, revestida de tecido simulando o corpo que os atores vestem, enfiando pela cabeça e prendendo na cintura.
Na coreografia, enquanto dançam, são carregadas com sal, querosene, tecidos, manufaturados etc... Dança marcada com iluminação, uma mula se aproxima carinhosa da outra que lhe dá um coice e se manifesta desagradando do carinho da outra.
Da porta sai Jerômo Babá colocando algumas cartas no embornal, é seguido de Antero e seu filho Isidoro que conversam.)


Antero
- Tá tudo escrito aqui, Isidoro?

Isidoro
- Tá, sim meu Pai.

Antero
- (Dobrando a carta) Entrega na mão do Clemente, meu filho. Já tá na hora. Um dia o destino se faz.

Antero (Virando-se para Jerômo)
- Amigo Jerômo, e esse sertão como está?

Jerômo
- O sertão é sertão Antero, sempre assim, igual e desigual todo dia.

Antero
- Jerômo, Isidoro já tá pronto, ponho confiança no amigo. Meu menino, já tá crescido e tem que assumir a responsabilidade de criar familia. Conhece o Clemente, não?

Jerômo
- Quem nessas bandas não conhece!

Antero
- Pois bem, sua filha Rosinha é a prometida de Isidoro indesde criança. Com o aperrengue da doença da patroa não podemos ir e já não dá tempo pra adiar a data. Esses caminhos são difíceis de enfrentar pro menino sozinho por isso ele pega uma ponga com o amigo.

Jerômo
- Vosmecê pede o meu ofício. Pode tranqüilizar que o menino Isidoro chega no Clemente bem. Não tenha cuidados, apalavro.

Antero
- Sua palavra é minha noite de sono. Amigo Jerômo.

Jerômo
- Vamos menino Isidoro. Daqui até o Clemente tem muita estrada pra conhecer seus passos.

Isidoro
- Tô pronto, Seu Jerômo

Antero
- Deus acompanhe. O amigo rompe até lá num prazo de mês?

Jerômo
- Com fé seu Antero. (Para as mulas) Vamos estradar minha tropa.
(pausa) - Borborema, você vai com Isidoro.

Isidoro
- Vem Borborema.

(Parte a tropa. Isidoro trata Borborema com muito carinho, escova com as mãos seu pelo, acaricia o pescoço etc...)

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Cena 2


Indicação de estradar, música Tema das Mulas


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Jerômo
- O menino tem que idade?

Isidoro
- Aquela idade que meu pai acha que devo casar sabe?

Jerômo
- Você não tá novo para casar, não?

Isidoro
- Pai que tratô com seu Clemente quase mesmo dantes deu e Rosinha nascer.

Jerômo
- Conhece a prometida?

Isidoro
- De enxergar no olho, não. Só do ouvir falar. Diz que ela é formosa. O Sôr conhece?

Jerômo
- Conheço. Uma boniteza, Isidoro.

(Anoitecendo)

Jerômo
- A noite empurra o dia, menino Isidoro. É a primeira viajem que você faz com a tropa de Jerômo Babá. Eu e minhas mulas cremos que a dormida é especial. Sabe aquela hora que toda gente para pra apreciar a Lua? E na cabeça vêm tantos pensamentos...

Isidoro
- É quando a gente respira fundo e sente só o cheiro do mato...

Jerômo
- E a dormida de hoje vai ser ainda mais especial, porque o céu é dono de uma lua linda. Veja Isidoro, junto com as estrelas que parecem... Isidoro me responde uma coisa. Olhe bem pra lua, olhe bem pras estrelas e me diga: Que elas fazem dentro da gente?

Isidoro
- Ah, Seu Jerômo, me deixa pensar... Um deslumbramento!

Jerômo
- E quem são elas? Vamos me diga...

Isidoro
- Quem são elas... Ah, Seu Jerômo... Quem são elas... Hum...

Jerômo
- Pensou demais Isidoro. Para apreciar a Lua, na cabeça...

Jerômo e Isidoro (Juntos)
-... Não passa nenhum pensamento.

Jerômo
- As estrelas são filhas dela, Isidoro. Tudo que nossos olhos mirarem com atenção vai parecer diferente.

(Ja se preparando para dormir)

Isidoro
– Seu Jerômo, desde pequeno eu conheço o senhor e sempre vi o Sôr só.

Jerômo
– Eu nunca andei só, Isidoro.

Isidoro
– Eu sei. O senhor anda com suas mulas, mas eu tô me referindo ao casamento. O senhor já foi casado?

Jerômo
– Sou casado com meu ofício, menino Isidoro.

Isidoro
– Mas eu tô falando de tê mulher e filhos, Seu Jerômo.

Jerômo
– Eu também Isidoro, boa noite.

Isidoro
- Boa noite.

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Cena 3

Música Dança


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(Dormem. À meia noite acontece o encantamento. Uma grande festa com dança e música. A mula Borborema transforma-se numa linda mulher. Isidoro acorda assustado e vê tudo aquilo com o maior espanto, não diz nem uma palavra. Fica olhando a festa, meio perplexo, Borborema o faz ficar apaixonado com olhares e gestos lânguidos. O encanto termina no quase raiar da manhã. Jerômo Babá acorda primeiro, arruma as coisas para partir)

Jerômo
- (Acordando Isidoro) - Isidoro! Temos estrada, nosso tempo é a estrada, menino.

Isidoro
- (Acordando, lembrando da festa, mais do que apavorado) Seu Jerômo! Seu Jerômo!

Jerômo
- Que é?

Isidoro
- Seu Jerômo! Ontem à noite, Seu Jerômo! Cadê... Seu Jerômo?!

Jerômo
- Mal o sol levantou e você tá aí feito doido. Vamos! Se apronte logo, temos de partir.

Isidoro
- Seu Jerômo?

Jerômo
- Que é.

Isidoro
- Nada não, bestagem... Faz muito tempo que o senhor tem essas mulas?

Jerômo
- (Rindo) Mesmo muito dantes d’ocê nascer eu já era Tropeiro.

Isidoro
- E as mulas?

Jerômo
- Você já viu algum tropeiro carregar carga nas costas?

Isidoro
- Claro que não. É que nessa noite eu tive um sonho estranho.

Jerômo
- Todo sonho é mais do que céu e terra, Isidoro.

Isidoro
- Sabe Seu Jerômo, um sonho estranho, mas por um momento eu achei que o que meus olhos viram foi verdade e não sonho. O senhor me entende?

Jerômo
– Claro céu e terra também mudam até de cor. Agora vamos que tenho de passar na Igreja do Inajá, entregar a encomenda do padre.

Estradar, música Tema da mulas

(Isidoro sempre tratando Borborema com muito carinho. A tropa vai no caminho da Igreja saindo de cena ao mesmo tempo em que entra Quengo típico malandro do sertão)

Cena 4



Apresentação do Quengo

Quengo
Quengo, Quengo quengueiro é o
Meu nome e profissão
Pois engano todo mundo
E ninguém me engana não
Mil passos dou no escuro
Seguro qualquer trovão

O povo ficou com medo
No momento em que nasci
Porque três litros de leite
Com farinha eu comi
Pois Quengo quengueiro
Veio aqui prá iludir

Eu já morri uma vez
Não achei onde ficar
Nem mesmo perto do céu
Eu fui capaz de chegar
E no inferno Lúcifer
Também não quis me aceitar

E por isso o mundo é meu
Agora; é que vim sabido
Já conheço duas vidas
Não posso ser iludido
Agora nessa viagem
Eu venho bem prevenido

Trago a cabeça esperta
Trago viola na mão
Quengo um e quengo outro
Quengo crente e cristão
Quengo rico e quengo pobre
Quengo qualquer cidadão

(No fundo da cena. O padre esta no confessionário, quando entra Maria e se ajoelha, Quengo a percebe)

Vejo mulher ajeitada
Em ares de alegria
A estar na Igreja
Sem rezar Ave- Maria
Sinto cheiro de pecado
Hoje que faço meu dia

(Quengo se esconde atrás do confessionário de modo que ele ouça tudo que o padre e Maria falam)

Cena do padre com Maria

Maria
- (No confessionário) Estou com medo, o João já esta desconfiado, vive falando que venho muito na igreja. O que eu faço meu amor.

Padre
- Calma Maria. Me conte o que aconteceu. Não tem ninguém na igreja, vamos pra sacristia conversar melhor.

Maria
– Sabe. Eu ando fazendo o que eu não devia...

Padre
- Vamos, não tenha medo (andando para a sacristia).

Maria
- É que eu estou apaixonada... (Pausa) demais, demais... Larga a batina, não quer fugir mais eu?

Padre
- Se acalme Maria, (Querendo desconversar) você não pode deixar o Joãozinho e a Mariinha sem mãe, sua casa bonita, os confortos. Você ia se arrepender depois. Eu não tenho nada sou só um padre comum do interior.

Maria
- Mas ele tá muito desconfiado. O que eu faço?

Padre
- (Beijando Maria apaixonadamente, mas com o olhar na fresta da porta) Vem vindo seu marido, melhor que você vá.

Maria
- (Desesperada) O que eu faço!

Padre
- Vai Maria, sai pelos fundos, a gente se encontra hoje à noite na ponte Riacholina...

Maria
- Tá bem meu Santo, hoje à noite na ponte Riacholina.

Padre
- Vai, agora vai. (Maria sai pelos fundos da Igreja)

(Entra João, marido de Maria que está furioso e começa a bater à porta da sacristia. Quengo continua vendo toda essa ação sem ser visto)

(Neste exato momento chegam também Jerômo e Isidoro conversando)

Jerômo
- Perdeu a língua Isidoro, todo o caminho calou. Que tumulto e esse seu João. (Falando com o marido)

Isidoro
- Decerto morreu alguém (Falando baixo).

Jerômo
- Creio que não.

João
- (Na porta da sacristia batendo) Seu padre abre a porta, eu sei que ela está aí. Mulher sem direção. Abre Padre!

Jerômo
- (Para João) Que se passa aqui?

João
- Minha mulher tá aí dentro, ela vive nessa igreja, seu Jerômo. Entrou ai agorinha e esse padre safado tá com a porta trancada.

Jerômo
- Você tá afirmando que o padre tá engraçano com sua mulher, mas não pode seu João.

João
- Pode sim.

Jerômo
- Mas o porquê da conclusão antecipada? Às vezes é engano seu.

João
- Aqui não tem nada de confusão antecipada, o que tem é muita sem-vergonhice... De uns tempos pra cá minha mulher passou a se confessar três vezes por semana, é pecado demais... Não sai de dentro da Igreja, não me olha mais, não quer mais nada comigo, todo dia tá com dor de cabeça, tá cansada... E desde quando confissão cansa? Abre padre! Abre padre!

Jerômo
- Nem toda sede leva ao pote... Se prometer parar com essa bagunça, entro e converso com o padre.

João
- Tá bom seu Jerômo. Mas ainda pego esses dois.

Jerômo
- Entendo sua raiva. Agora afaste, deixa eu entrar. Padre! Padre! (João vai saindo)

Padre
- (Mudando a voz) Ele não está já disse.

Jerômo
- É Jerômo Babá quem chama... Padre! Trouxe sua encomenda.

Padre
- (Voz normal) Jerômo Babá?

Jerômo
- Sim padre.

Padre
- (Voz normal, mas desconfiado) Aquele louco ainda esta aí?

Jerômo
- Não. Só eu mais o menino Isidoro, filho do Antero.

Padre
- Só os dois.

Jerômo
- É padre, só nos dois.

Padre
- Tem certeza?

Jerômo
- Claro padre, não sou de enganação, tá me estranhando?

Padre
- E quem tem o demônio no corpo?

Jerômo
- Continua com ele, só que agora longe e manso. Pode abrir... Padre?

Padre
- (Abrindo ressabiado. Eles entram) Nenhuma alma pode estar mansa se tem o demônio no corpo.

Jerômo
- Calma seu vigário, já falei com ele. Depois ele vai ouvir sua explicação.

Padre
- Mas eu não tenho nada pra explicar.

Jerômo
- Então o senhor resolve com o homem outra hora. Trouxe o que me encomendou. (Dá-lhe uma garrafa de vinho do porto)

Padre
- Agradecido, Seu Jerômo. Sabe, vida de padre é um inferno mesmo.

Isidoro
- Pelo amor de Deus padre, não fale desse jeito, não.

Padre
- Isso é só jeito de dizer as coisas. Qual é o destino de vocês?

Isidoro
- Seu Jerômo me leva até o Clemente onde eu vou casar.

Padre
- Ah! Claro. Como eu sou esquecido, sou eu quem vai fazer o casamento de vocês.

Isidoro
- (Assustado) É mesmo, é?

Padre
- Seu Jerômo (Sem responder a Isidoro), eu preciso de um favorzinho do senhor antes de partir.

Jerômo
- Às ordens.

Padre
- Sabe aquele maluco lá fora?

Jerômo
- Aquele? João... Sei.

Padre
- Então, ele fica batendo aqui em casa, faz uma arruaceira danada e diz que sua mulher tem outras intenções comigo, pode? Então, o senhor diga àquele camarada que não havia ninguém aqui dentro, como pode ver, não é? E que eu estava rezando em total devoção. Só para não haver encrencas, compreende?

Jerômo
- Pode deixar seu padre que vou fazer isso. Até mais ver.

Padre
- Até, até o casamento menino Isidoro.

(Quengo continua no canto observando tudo. Saem da Igreja. São abordados por João)

João
- E então? Qual foi a desculpa que ele deu?

Jerômo
- Nada me disse, apenas rezava em total devoção.

João
- E a minha mulher não estava lá?

Jerômo
- O padre estava só. (Saindo) Já disse, rezando em total devoção.

João
- Como em total devoção... Total devoção...

Música Tema das mulas

(Sai Jerômo e Isidoro, música sinalizando a saída da tropa. João fica desolado em frente à igreja e é abordado pelo Quengo)

Pausa

Quengo
- Salve companheiro
Que venho aqui chegando
Vejo sua cara triste
Vejo você resmungando
Entendo esse seu sofrer
E vou logo lhe explicando...

João
- (Bravo) Fique quieto, sai pra lá.

Quengo
– (Provocando)
É coisa dura mesmo
De ninguém desejar
É melhor até morrer
Do que chifre carregar
Se nem mesmo seu chapéu
Na cabeça pode entrar

João
- (Mais bravo) Cala a boca, seu, que você não sabe de nada.

Quengo
- Meu caro amigo
Você acreditou que sua mulher
Não estava aí (Irônico) a rezar

João
- Assim o tropeiro disse.

Quengo
- Acreditou no tropeiro...

João
- Jerômo não retruca verbo, não.

Quengo
- Mas o que o tropeiro não viu
Ele não pode falar
Eu te digo que sua mulher
Estava sim, aí dentro
E não estava a rezar

João
- É, e como sabe disso?

Quengo
- Eu sei de tudo que se passa nesse sertão

João
- Ah! Não me incomode com bobagens!

Quengo
- Eu vou lhe provar que de tudo eu sei muito. O sertão está na minha mão.

João
- (Indiferente) Ah, é?

Quengo
- Então vê só. Sei que o nome dela é Maria e o seu é João.

João
- (Pensando surpreso) É mesmo.

Quengo
- Sei que tem dois filhos... (Reação de João) Uma menina de nome Maria (Outra reação) E um menino de nome João. (reação de espanto)

João
- É mesmo, como sabe?

Quengo
– Calma... Não acabou
Sei que mora no pé do morro.

João
- É. (Espantado, quase convencido dos poderes do Quengo)

Quengo
- Sei que sua mulher tem dois peitos...

João
- Não é que tem mesmo.

Quengo
- E sei que seus filhos têm uma corrente no peitoral.

João
- Ué isso não tem não.

Quengo
- Mas vão ganhar de sua tia no Natal. Agora acredita em mim?

João
- Claro tem toda minha confiança.

Quengo
- Quero que você veja
Sua mulher se danando
Você vai pegar os dois
Safados se enroscando

João
- Então me diga homem, que dessa estória eu não estou gostando.

Quengo
- Eles vão se encontrar hoje à noite na ponte Riacholina.

João
- Então eu vou lá agora.

Quengo
- Não! Você não pode dar marca
De gente conhecida
Troque de roupa comigo
Use minha roupar encantada
Se faça passar de vendedor de flores
Quando oferecer uma
Você dá o pega nos dois
Coladinhos, isso eu te garanto.

João
– Boa idéia... (Trocam de roupas. João guarda sua carteira)

Quengo
- Não, meu amigo
Você não pode ficar
Com nada que lhe pertença
Tudo tem que ser novo
Não entendeu o que eu falei?

João
- Mas, e o meu dinheiro?

Quengo
– Depois, eu lhe devolvo não se preocupe. Mais valiosa que seu dinheiro é minha roupa encantada que estou emprestano, sem ela não adivinho nada de nada. (João deixa até sua carteira com Quengo)

João
- Tá bem. De hoje não passa, eles vão ver só...

Quengo
- Mas lembre-se que até o dia amanhecer temos que destrocar a roupa aqui na porta da igreja. Não pode passar dessa hora senão ela perde o encanto. Até, meu grande amigo (Quase irônico)
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Cena 5


Música Sereno

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A vida do sonho ou o sonho da vida


Isidoro
- (Para a Borborema) Borborema, acho que você tem algo a me dizer. São seus olhos. Noite passada aconteceu uma coisa comigo que eu não sei se é verdade ou não. Aconteceu, Borborema que você era uma mulher linda, dona de muita leveza e dançava... dançava... Tudo era muito colorido, e até confesso um segredo; me apaixonei. Como posso pensar uma coisa dessas? (Descrente) O fogo só chora quando arde. Claro que tive foi uma alucinação. Estou ansioso para ver Rosinha, será que é isso. É, é isso. Deve ser isso.

Música incidental Prateado

(Todos dormem, exceto Isidoro. Tempo)

Isidoro
- (Extremamente inquieto, falando pra si mesmo) Mas será possível que pode acontecer uma coisa dessas? Ah Deus! Nunca duvidei de nada que meus olhos testemunharam. Medo? Não, não sinto medo, mas desentendo o que eu vi no meu sonho na noite passada, mas foi tão bom que eu quero que seja verdade. Todos dormem, eu não consigo.

(Durante essa fala a mula Borborema transforma-se em mulher e vai se aproximando devagar)

Isidoro
- O sonho veio logo depois que a lua estava bem recamada. Era meia noite, eu acho! Essa noite não vou pregar o olho pra ter certeza do que vi, sei que alguma coisa me vigia. (Tempo) Seu Jerômo disse que as estrelas são filhas da lua, filhas que brilham com a luz da mãe. (Tempo) Quantas estrelas valem o sonho de um homem? (Conta as estrelas) Uma? Duas? Três, quatro, cinco, seis... Nenhuma? Todas as estrelas de uma vez sumiram? Só a lua aparece. Será que já deu meia noite. (Vira-se e vê a festa. Borborema transformada em uma linda mulher se aproximando dele) Por mais quanto tempo posso duvidar? Só sei que amanhã vou acordar. (Borborema o chama com um gesto) Que é isso?

Borborema
- Quanto sonho...

Isidoro
- (Borborema aproxima-se e o toca) Borborema?!

Borborema
- Não se espante.

Isidoro
- Espanto? Claro que não, mas me conte o que é isso?

Música incidental Retiro (Borborema o encanta com sua dança e depois o abraça e beija)

Isidoro
- (Confirmando espantado o que viu) Borborema... Então é verdade.

Borborema
- Olhe para o céu.

Isidoro
- As estrelas voltaram!

Borborema
- Elas também fazem parte dessa festa.

Ainda a música Retiro e uma das mulas transformada declama enquanto os dois se abraçam:

Faço assim porque te amo
Por ti meu peito suspira
És um espelho bem claro
Onde minh’alma se mira
Entraste em meu coração
Só mesmo Deus é quem tira.

O céu abre em sua face
Um sorriso, puro amor
A rosa tem seu nome
E você o esplendor
O seu peito tem a calma
Das cantigas de amor.

Não sei mais sonhar
Senão a vida
E Não sei mais viver
Senão o sonho

(Acaba a festa)

Mudança de luz



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Cena 6





Uma manhã sem amor



Isidoro
- (Acordando assustado) Seu Jerômo, cadê Borborema?

Jerômo
- Borborema tá aí.

Isidoro
- Não! Eu quero ver a linda Borborema!

Jerômo
- Borborema é linda assim.

Isidoro
- Eu quero ver a mulher, Seu Jerômo. Não estou vendo a mulher.

Jerômo
- (À parte) Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

Isidoro
- Quê!?

Jerômo
- Isidoro, o encanto da transformação acontece só à meia noite.

Isidoro
- Então, como nunca, quero que o dia passe logo para eu ver Borborema. Não quero casar com Rosinha. Quero é Borborema.

Jerômo
- Isidoro; Qualquer pessoa que viaja com a tropa de Jerômo Babá, pode ver esse sonho que você viu.

Isidoro
- (Enciumado) Todo mundo vê Borborema mulher?

Jerômo
- Vê?!

Isidoro
- E então... (Desolado) Não pode ser!

Jerômo
- Pois bem, mas nem todo mundo que vê, acredita. Você acreditou e por isso se lembrou do sonho, viveu ele. Realmente, de você adentrar no sonho não existe problema algum, (Bravo) agora, de ficar apaixonado por Borborema, tem e muito.

Isidoro
- Mas, pôr que?

Jerômo
- Você não pode sonhar porque vai se casar.

Isidoro
- Casar com quem eu nunca vi não tem graça.

Jerômo
- Isso você já sabia.

Isidoro
- Mas não sabia o que era estar apaixonado.

Jerômo
- E de ver falar não tava de bom tamanho? Foi você mesmo quem disse que Rosinha é formosa. Eu só confirmei.

Isidoro
- Seu Jerômo!(Malicioso) Sabe como são as coisas, não? Ver falar a gente vê. Mas não pode pegar, tocar. Tá me entendendo?

Jerômo
- O senhor trate de arranjar logo suas idéias. Cê assossege.

Isidoro
- Como pode falar em sossego, se meu coração é só chama?

Jerômo
- Isidoro! Tem horas em que, de repente, o mundo torna grande demais, mas numa outra hora, ele passa a ser pequeno demais...

Isidoro
- E daí?

Jerômo
- (Sereno) Às vezes é melhor esperar o terceiro momento.

Isidoro
- Mas, Seu Jerômo...

Jerômo
- Entendo sua raiva, mas minhas mãos estão presas ao que eu disse. Dei minha palavra ao Antero que te levaria até o Clemente. Assim vai ser. Jerômo Babá é homem de palavra, (Tempo) Nunca faltou com ela.

(Saem de cena. Aparece o Quengo)

Fingindo-se de cego.

Quengo
- Já consegui mais algum
Mas trabalhar não vou (Avista a tropa)
Hoje é meu dia de sorte
O tropeiro vou levar
Vou dar o quengo nele
De nada vai desconfiar

(Coloca os óculos de cego e toca muito mal a violinha e declama um repente para a tropa ouvir)

Ouço pisadas de mulas
Como mulas não andam só
Percebo gente também
Que de mim terão dó
Sou um velho que o tempo
Quis fazer virar pó

(a tropa se aproxima)

Ajude um velho manco
Que só tem viola na mão
Tem o corpo todo torto
Só sabe fazer canção
Mas nunca assa o pão
Porque pão não tem não

Jerômo
- Visão você não tem, mas conhece a arte de rimar.

Quengo
- Se isso eu não soubesse fazer
Minha sina seria morrer

Jerômo
- Qual é a tua graça?

Quengo
- Tem tempo que não vejo
O meu rosto em alegria
Tratei de esquecer também
O meu nome de pia
Quengo é meu nome
E minha mãe é a poesia
Sinto a barriga doendo
E tudo que não tou vendo
Vai sendo o que me engraça
Quero do amigo tropeiro
É um gole de cachaça

(Pega a cachaça)

E essa farinha da grossa

(Esquecendo que é cego, e olhando. Pegando a farinha)

Que tem dentro da cabaça

Jerômo
- Nego não, tome. (ressabiado, falando baixo pra Isidoro) cego perdido nessas bandas em meio ao sertão... É perigoso.

Quengo
- Mas não chego à cidade
Sem alguém me ajudar

Jerômo
- Nós vamos pousar aqui...

Quengo
- Nessa noite de estrelas
Fico em vossa companhia
Vamos deitar juntos
Até nascer novo dia
Com o sol presente
Partimos com cantoria

(Isidoro e Jerômo concordam. Dormem. Sonho)
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Cena 7





No sonho a gente foge

(Borborema logo depois de virar mulher, cantarola para Isidoro a mesma canção que ouviram na noite anterior (Sereno)

Isidoro
- Borborema vamos fugir para a gente pode viver em paz.

Borborema
- Eu já vivo na paz, Isidoro. Porque você não esquece um pouco seus pensamentos e vem dançar comigo?

Isidoro
- Como eu vou dançar com você sabendo que tenho de casar com Rosinha. Seu Jerômo quer me levar até o Clemente de qualquer jeito, e eu não quero, eu não vou.

Borborema
- Tudo o que meu coração quer é ficar perto de você.

Isidoro
- Então vamos fugir Borborema, vamos agora.

Borborema
- Minha vida é esse sonho...

Isidoro
- Mas só o sonho?

Borborema
- Não, e agora você também. Se eu ficar só com o sonho, falta uma coisa. Se eu fugir com você, falta outra. Continua faltando sempre alguma coisa do mesmo jeito.

Isidoro
- Se a gente não pode ficar juntos, nem fugir, o que vai fazer quando eu casar com Rosinha?

Borborema
- Não sei Isidoro, não sei (triste).

Isidoro
- Eu arrisco minha vida; enfrento meu pai, Seu Jerômo, Seu Clemente, quem quer que seja para ficar com você...

Borborema
- Mas assim não posso Isidoro. Sou bicho e gente, (Quebra o clima) Quando a gente sonha a cabeça desliga. Vem vamos dançar. (Isidoro resiste um pouco e finalmente vai) Vem.

(Dançam. O Quengo acorda. Não enxerga o sonho, ele vê todos dormindo. Isidoro percebe o Quengo e fica irrequieto) Música Dança

Quengo
- A tropa já dorme
Mas eu durmo não
Vou esconder carga
Desse cidadão
Na manhã sou cego
Não sei nada não

Isidoro
- Cabra safado da peste. (Para Jerômo) Veja Seu Jerômo, esse danado não é cego coisa nenhuma, ele tá roubando toda a mercadoria. Vamos ter que fazer alguma coisa.

Jerômo
- Disso eu já sabia, mas deixa Isidoro, faça nada agora não.

Isidoro
- Como sabia? Ele é cego, quer dizer era cego. (Assustado) Como adivinhou que ele não era cego?

Jerômo
- Isidoro, Você já viu alguma vez na sua vida cego diferenciar farinha fina da grossa sem usar as mãos? Amanhã a gente assusta ele.

(Acaba o sonho. Todos dormem. Amanhece)

Outra cena de manhã

Quengo (Acorda e vê os dois desesperados. À parte)
O menino tá doido
E o velho preocupado
(Para eles) Que aconteceu seu moço?

Isidoro
- (Fingindo preocupação) Fomos roubados, levaram toda nossa mercadoria!

Quengo
- Eu pego o safado
Que fez essa arte
Vou pegar esse pilantra
E cortar ele em parte.

(Jerômo finge receber espíritos)

Jerômo
- (Em transe) Eu estou vendo...

Quengo
- Vendo quê?

Isidoro
- (Entendendo) – Calma! Calma!...

Quengo
- Mas que diacho que vocês estão vendo?

Isidoro
- Fala nada não ele tá possuído, é perigoso perguntá.

Jerômo
- Eu estou vendo... Agora mais perto... Eu estou vendo...

Quengo
- O que?

Jerômo
- (Apontando para o lugar da mercadoria) Ali.

Quengo
- Ali? (Tira os óculos para ver) O que o senhor tá vendo?

Jerômo
- Ali.

Quengo
- Me diga logo.

Isidoro
- Eu também começo a ver...

Jerômo
- Eu estou vendo.

Quengo
- (Irado) Não sou nenhum tonto
Quê alguém dê patada
O que vocês tão vendo
Que eu não vejo nada (Se denunciando de novo)

(Continua o transe, Jerômo e Isidoro, agora mais perto da mercadoria apontam)

Jerômo
- Ali (O transe aumenta) Diz à lenda que quem rouba um tropeiro que leva um homem para o casamento, cai sob a maldição, na pior desgraça de todos os tempos e por isso receberá um presente...

Quengo
- (Feliz) Presente?

Jerômo
- Receberá a graça do cão.

Quengo
- Que tá acontecendo, meu Deus?
Vou me mandar daqui
Esses dois são loucos...
Eu não vou rimar mais nada...
(Quengo foge assustado)

Isidoro e Jerômo
- (rindo) Mas o senhor viu como o homem ficou. Branco de dar dó. Parou de rimar na hora do presente...

Jerômo
- Vamos Isidoro, que casa do Clemente é logo ali.

Isidoro
- Hum... (Zangado)



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Musica Mulas no Corte


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Estradar

Isidoro
- (À parte) Se Seu Jerômo tem que cumprir com sua palavra e ele vai cumprir. Tenho que fazer alguma coisa, (para Borborema mula) pra ficar com você.

(Isidoro e a tropa chegam no Clemente, o clima é de festa na família.)



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Musica Descarrego das Mulas

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Chegada no Clemente quase escurecendo

Clemente
- Seu Jerômo! Bem vindos! Isidoro? (Apontando pra Isidoro)

Jerômo
- Salve Clemente!

Isidoro
- (Entregando a carta do pai) Como vai seu Clemente?

Clemente
- Que alegria. A viagem deve ter sido muito cansativa, creio eu... (falando pra Jerômo) descarregue a mulada, pode acomodá no paiol. Isidoro você vai dormir na sala. Ah, sim. O velho Antero... Vamos ver. (lê a carta). (Perguntando pra Isidoro) – E sua mãe esta melhor? Amanhã você vai conhecer Rosinha. (Rosinha aparece na janela)

Isidoro
– Ainda de cama Seu Clemente. Prefiro dormir no paiol com Seu Jerômo, pra ajudar ele.

Clemente
Fica a gosto meu filho.
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Cena 9


Musica Prateado


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Cena da Borborema

(A mula Borborema tenta dançar para sair do seu encantamento e se transformar em mulher antes da meia noite. Ela tenta várias vezes até que se transforma. Jerômo assiste essa dança, ao lado Isidoro, ensimesmado nem prestar atenção, triste no canto. Quando ele escuta a voz de Borborema falando com Jerômo, começa a prestar atenção na conversa)

Jerômo
- Não acredito!

Borborema
- (Aproxima-se) Mas sua palavra foi só de trazer Isidoro até a casa de Clemente, não foi?

Jerômo
- É, foi.

Borborema
- Então. Ele já está aqui e eu quero Isidoro.

Jerômo
- E a minha palavra...

Borborema
- Já foi dada e cumprida. Não tem agora nenhuma palavra que vença o amor, não é assim?

Jerômo
- É. Tá bem minha menina...

(Nessa hora Isidoro entra na conversa, enquanto Quengo chega sorrateiro e fica escondido no canto do paiol escutando. Sem entender nada que Jerômo fala, pois não ouve a voz de Borborema só a de Jerômo, passa a entender a conversa quando Isidoro começa a falar com Jerômo.)


Quengo (Vingativo)
- Sou Quengo Quengueiro
Desistir não posso não
Malazarte e Cancão
Me ensinaram a profissão
Tenho a última chance
De sair bem da situação
Eu vou aprontar uma
Para esse tropeiro
Vou fazer o menino
Ir sambar no terreiro
Ou então não me chamo
Quengo Quengueiro
É hoje que eu me vingo!


Isidoro
- Antes da meia noite, como foi isso.

Borborema
- Isidoro, se eu viro mulher antes da hora, é para ser sua mulher na hora certa.

Isidoro
- Virou mulher antes da hora... O Sôr vai ajudar Seu Jerômo?

Jerômo
- Vou sim.
(Borborema sorri)
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Cena 10





Casa do Clemente, Quengo batendo na porta

Quengo
- O Sôr é Seu Clemente?

Clemente
- Sim, senhor.

Quengo
- Venho a mando do padre, meu padrinho, lhe dá um aviso. O minino filho do Antero é doido, pro senhor presta atenção nele antes de casá sua filha mais ele (nessa hora Rosinha chega também na porta, ouvindo a conversa)

Clemente
- Doido como?

Quengo
- Doido, tan... tan... Perturbado. O Sôr mesmo pode ver lá no paiol, quando passei na porta vi ele variano, conversano sozinho, deu ate dó (olhando já interessado pra Rosinha)

Clemente
– Quero ver. (indo em direção do paiol, com Rosinha atrás e Quengo se engraçando com ela)

(No paiol a cena de Jerômo sentado e Isidoro em pé, entre eles Borborema. De modo que quando eles se falam, como Clemente, Rosinha e o Quengo não enxergam Borborema como uma mulher e sim como a mula, fica parecendo que Isidoro esta falando com Jerômo)

Isidoro
- meu amor vamos achar um jeito de ficar juntos para sempre, (e se dirigindo pra Jerômo) o senhor vai ajudar. Estou feliz.

Jerômo
- Não se precipite menino Isidoro, calma. (com um ar de preocupação)

Musica Dança



Borborema
- Vamos dançar, nosso amor há de valer. (Toma Isidoro pela mão e começam a dançar, os três que estão espreitando enxergam só Isidoro dançando em volta da mula e na frente de Jerômo, que com a fisionomia preocupada em achar uma solução parece aos olhos de Clemente estar preocupado com Isidoro que não regula bem)

(Escondidos espreitando)

Clemente
- É grave.

Quengo
- Muito grave seu Clemente, o padrinho falou.

Clemente
- Hum... Será...

Rosinha
- Cruz credo, meu pai.
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Cena 11





Amanhece

(De manhã, na porta da casa, Jerômo chegando e Clemente saindo - pela porta também se vê Quengo em agarramento com Rosinha, mas fora das vistas de Jerômo)

Jerômo
- Seu Clemente quero lhe falar.

Clemente
- Amigo Jerômo, não esperava outra coisa de vosmecê, sabia que ia me contar tudo, mas já sei. Assim mesmo fico agradecido. O rapaz é muito esquisito, bati o olho nele e vi que tinha coisa. O Antero tinha que ter posto na carta, ou será que num é do cunhecê dele as esquisitice do filho.

(Jerômo não entende direito o que Clemente esta falando, mas fica na expectativa levando a conversa pra frente)

Jerômo
– Isso, não posso saber, seu Clemente.

Clemente
- Pois vou escrever uma carta pra ele desfazendo o compromisso. Mais num posso fazer porque o Isidoro é prejudicado das idéia, as veis ele num sabe, fico na obrigação de num ofendê. O que o Sôr acha?

(Jerômo meio ressabiado)

Jerômo
- Não sei, não. E como o Sôr soube?

Clemente
- Vi ontem à noite no paiol, depois que o afilhado do padre deu o aviso.
(Entendeu que Clemente tinha visto sua conversa com Borborema e Isidoro, mas, afilhado do padre? Pensa Jerômo sem demonstrar desentendimento, vendo na conversa do Clemente um jeito de livrar Isidoro do casamento com Rosinha)

Jerômo
- Seu Antero há de compreender seu Clemente.

Clemente
- Sabe Seu Jerômo, Rosinha tem a saúde meia fraca (mentindo) e eu vou pedir pro Antero me liberar do compromisso, ai num preciso de falá nada do destempero do minino dele, no tempo ele descobre. Mais preciso dum favor do amigo que, passou esse tempo todo cum Isidoro nos caminho e deve saber falá cum ele melhor que eu.

Jerômo
- Pode deixar que faço com muito gosto e ele vai entender tudo direitinho. Levo ele comigo amanhã mesmo.

Clemente
- Obrigado.

(Sai para escrever a carta)



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Cena Final



Musica Tema das Mulas


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(Cena do cometa de Jerômo partindo antes do raiar do sol, tiros confusão e muita gritaria, quando Jerômo, Isidoro olham pra trás, Quengo esta pulando da janela de Rosinha, tropeçando e caindo e atrás o Clemente com a espingarda na mão atirando nele, Rosinha na janela gritando)

Jerômo
- Então era esse o afilhado do padre!

Isidoro
- É o cego que não é cego!

(Continuam a caminho rindo)
(pausa)



Narradores
- O Padre restou sem batina
Andando nu no sertão
João ficou sem carteira
Maria levou safanão
Clemente desfez o trato
Em carta de consideração
Rosinha ficou quase viúva
Sem entregar sua mão
A Quengo que saiu pelo mundo
Correndo de obrigação

Quem anda pelo lugar
Dia a dia, cada ano
Encontra os dois tropeiros
Com a tropa estradano
Levando de cá pra lá
O sonho que vão sonhano


Isidoro
- Seu Jerômo, nunca vou poder pagar o que o senhor fez pelo nosso amor.

Jerômo
- Pra amor não tem paga não, menino Isidoro, tem não.





Fim
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